sexta-feira, 27 de abril de 2012

INFORMAÇÕES GERAIS DO POVO APINAYÉ:

QUEM SÃO OS APINAJÉS OU APINAYÉS?
Os apinajés são um povo indígena que pertence  ao  Tronco  Macro-Jê  e  à  família  lingüística Jê, falada por aproximadamente 1.786 pessoas.

ONDE SE LOCALIZAM?
Localizada em 15 aldeias, norte do Tocantins. Para análise de nossos dados, foi levado  em   consideração   o   contato   com   a   sociedade   envolvente,   a   ocupação das terras, a trajetória histórica das aldeias, os grupos sociais, o grupo familiar, o dualismo e suas metades Kooti e Koore, que aparecem para realinharem as relações sociais desse povo, em termos de princípios que  atravessam toda a sociedade, orientando as dimensões dos seus membros para as dimensões mais universais e coletivas do sistema Apinayé.

 A ocupação da comunidade Apinayé era o pontal entre o rio Tocantins e o baixo Araguaia. A trajetória histórica dos Apinayé   não   informa   se   essa   região   por   eles   ocupada   teve,
anteriormente,  outros  habitantes.  Os  Apinayé  afirmam  que,  em   alguns   lugares   perto   da   antiga   aldeia   (denominada   Gato Preto) , encontravam-se muitos fragmentos de louças, alguns com ornamentos plásticos, à superfície da terra. Isto leva a crer que,  mesmo   que   por   pouco   tempo,   essas   terras   tenham   sido habitadas por índios de outras culturas.

QUAIS AS PRIMEIRAS NOTÍCIAS DOS APINAJÉS?
         Os   Apinayé apareceram pela  primeira  vez, sob esse nome, em fins do século XVIII, e segundo Villa Real datam de 1793 as primeiras notícias sobre os Pinagé ou Pinaré. Índios
muito fortes e mais trabalhadores que os Karayá, dedicavam- se à lavoura e tinham grandes plantações de mandioca. Consta que, naquela época, os Apinayé viviam às margens do Araguaia, embora suas habitações não tenham sido localizadas nas praias desse rio. Constatambém que, durante o primeiro contato com os   não-índios,  os Apinayé   possuíam  embarcações  próprias, estando familiarizados com as navegações dos rios Araguaia e Tocantins.

EMBARCAÇÕES:
        As embarcações dos Apinayé eram do tipo “ubá”, como as dos Karajá e Guajajara, construídas de troncos de árvores escavados. Nimuendaju   (1983,   p.   3)   relata   que   os Apinayé eram a única tribo Timbira a fabricar tais embarcações. Para o autor, provavelmente, os Apinayé aprenderam a arte de navegar dos Xambioá-Karajá. Sendo que, mais tarde, com a colonização  desses grandes rios, os Apinayé teriam recuado para as matas
ciliares, abandonando a navegação.

PRIMEIROS CONTATOS COM NÃO INDÍGENAS E HISTÓRICO:
        O  final  do  século  XVIII,  mais  precisamente  a  partir  de   1797,   marca,   de   acordo   com   Nimuendaju   (1983,   p.   4),   o período de contato permanente dos Apinayé com a sociedade não-indígena, conforme apontam os dados que se seguem:

  a) em 1797, o governo do Pará funda, nas margens do Araguaia, o posto militar de São João do Araguaia, deflagrando  uma luta sangrenta entre os Apinayé e os soldados da guarnição
do posto. Os índios mataram quase todos os soldados;
  b) em 1816, foi fundado, no território Apinayé, o povoado de Santo Antônio, abaixo da cachoeira das Três Barras; nesse local, em 1824, já moravam 150 índios e 81 não-índios. Tal
povoado, em 1831, foi incorporado a São Pedro de Alcântara, recebendo, posteriormente, o nome de Carolina;
 c) em 1817, os Apinayé foram vítimas de uma epidemia de   varíola,   proveniente   de  Caxias   do   Maranhão   e   espalhada pelo sertão afora pelos Canela;
 d) em 1818, os Apinayé fizeram as pazes com Plácido  de Carvalho, fundador de São Pedro de Alcântara, com quem haviam   rompido   devido   a   contendas   locais;   viviam   em   três
aldeias, eram tidos como pacíficos e auxiliavam os viajantes  na travessia das cachoeiras. Nessa mesma época, existia uma forte  rixa  entre  duas  figuras  importantes  na  região, Antônio  Moreira e seu rival José Maria Belém; este recebia auxilio do Pará, enquanto aquele era apoiado pelo governo de Goiás. As intrigas entre esses dois mandões só terminariam em 1827;
e)em 1822, foi feita a declaração de independência do Brasil,   mas,   no   território   maranhense,   as   forças   portuguesas conseguiram       se  manter    até  1823.   No   rio  Tocantins,    nessa época,    o  major    Francisco    de   Paula   Ribeiro   se  encontrava
com   76   homens.   Contra   eles   se   dirigiram   470   não-índios   de Pastos Bons, sob comando de José Dias de Mattos, a quem os Apinayé ofereceram uma força auxiliar de 250 guerreiros. Na ilha da Botica, às margens do rio Tocantins, a pequena força portuguesa foi obrigada a lutar.
        Apesar da guerra e da varíola, os Apinayé formavam, na ocasião, uma das comunidades indígenas mais numerosas da região,   totalizando   4200   integrantes.   Em   1859,   uma   das   três aldeias  das  então  existentes  foi  visitada  por  Vicente  Ferreira  Gomes,   que   calculou   o   número   total   de   índios   entre   1800   a 2000. Em 35 anos, entretanto, esse total diminuiu para menos da metade. Em 1897, somavam apenas 400 habitantes. Sendo que, em 1828, os índios Apinayé totalizavam apenas 150 pessoas.

DE ONDE SURGIU O NOME APINAYÉ?
        De acordo com a literatura Apinayé, o nome da comunidade foi   citado   pela   primeira   vez,   na   forma   de pinarés   e pinagés , passando,   posteriormente,   para   Apinayé.   Nimuendaju   (p.   3) afirma não ter nenhuma explicação para esse nome. Segundo  o  autor,  o  sufixo  pessoal  -yé ,   das   línguas   Timbira   orientais, soa no próprio Apinayé como ya . Há uma hipótese de que o nome tenha sido dado pelos Timbira, não sendo, portanto, uma autodenominação primitiva dessa tribo. Além do nome tribal Apinayé, existem outros – tanto na própria comunidade como entre os Timbira orientais – derivados da palavra que significa  “Canto” ou “Pontal”. Apinayé: “ôd”, “ôdo”; Timbira oriental: “hot”, “hôto”, referindo-se à sede no pontal formado pelos rios Araguaia e Tocantins. Os próprios Apinayé usam a forma “ôti” para Pontal Grande; os outros Timbira usam “hôti Ahôtiyé”. Os
Kayapó setentrionais, porém, referem-se aos Apinayé, usando o  termo  “Ken-tug”,  que  significa  “pedra  preta ”  ou “serra negra ”.

 OCUPAÇÃO DAS TERRAS APINAYÉ:
        Na   região   do   Araguaia,   os   índios   habitavam   as   duas margens,   desde   São   João   até   a   aldeia   Cocal   Grande.   Porém, as lutas com os “civilizados” fizeram com que os Apinayé se  concentrassem   às   margens   do   Tocantins.   Na   medida   em   que a   área   indígena   era   invadida   por   fazendeiros   e   povoados,   os índios   migravam   das   aldeias,   muitas   vezes   para   trabalharem para os fazendeiros, outras tantas porque estes se aproximavam tanto das aldeias que os Apinayé não tinham como sobreviver com o que sobrava das terras que lhes eram retiradas. Apesar disso,   os   Apinayé   resistiram   às   invasões,   cada   vez   maiores, apegando-se à sua cultura e ao seu território, procurando ajuda junto   às   autoridades,   como   o   presidente   da   República,   e   ao Serviço de Proteção ao Índio – SPI. Entretanto, de acordo com Villa  Real  (apud   Nimuendaju,   1983,   p.   9),   o   abandono   das aldeias e a diminuição da população no início do século XX  deram   margem   para   que   os   fazendeiros   se   considerassem   os verdadeiros donos das terras indígenas.

        Conforme relatado em  Nimuendaju,  a  existência  dos ndios   Apinayé   no   extremo   norte   do   Tocantins   é   conhecida desde  o  século  XVIII,  quando  os  rios Araguaia  e  Tocantins  começaram   a   ser   navegados   por   jesuítas   e   bandeirantes.   O território   tradicional   dos Apinayé   ia   desde   o   pontal   entre   os rios Tocantins e Araguaia até a bacia do rio Mumbuco (afluente  do Tocantins) e na cachoeira dos Martírios (rio Araguaia). A ocupação da área indígena envolveu os Apinayé na economia, costumes e também nas intrigas com os  ditos civilizados.
                                    
De acordo com o Boletim n  22/82 da Fundação Nacional do   Índio  – FUNAI   em   1926   os Apinayé   tiveram   o   primeiro contato oficial com o SPI, e em 1944 fundou-se o Posto Indígena  Apinayé  mas continuando a área indígena sem demarcação.

Da Matta (1976, p. 36-37) informa que o território Apinayé começou a ser ocupado por uma fronteira de expansão pastoril cuja população era bastante rarefeita. Assim, a ocupação deve
ter deixado abertos alguns bolsões onde a população indígena conseguiu sobreviver. Isso deve ter facilitado a não destruição da vegetação da área, pois, segundo o autor, no século XIX o  babaçu começou a ser explorado mais intensamente, enquanto que o gado e a lavoura passaram para um plano complementar.

Na   região,   além   da   expansão   pastoril,   outro   fator   que atraía a cobiça dos regionais eram os babaçuais indígenas. A industrialização      da   amêndoa      do   babaçu    em    Tocantinópolis passou a requerer uma grande quantidade de matéria-prima para
extração do óleo e fabricação de sabão, e os índios só colhiam o suficiente para comprarem os produtos de consumo nas aldeias  para subsistência do grupo.

Segundo   o   Boletim   da   Fundação   Nacional   do   Índio,   o processo   de   ocupação   da   área   por   fazendeiros   da   região   se intensificou com a implantação do projeto de desenvolvimento  na   região   e   de   grandes   rodovias   como   a   Belém-Brasília   e   a
Transamazônica,         esta  localizada     somente     a  um    quilômetro da   aldeia   São   José.   Portanto,   a   não-demarcação   da   reserva indígena facilitou e estimulou a ocupação da área por parte dos fazendeiros e posseiros.

Conforme já assinalamos, os índios Apinayé começaram a   ser   integrados    à  história   do   Brasil   com    a   ocupação     do sertão  nordestino  e  com  a  intensificação  da  navegação  do  rio   Tocantins. A  ocupação   do   sertão   do   Maranhão,   da   Bahia e do Piauí é conseqüência da criação extensiva de gado que, no Período Colonial, servia para alimentar as populações dos engenhos litorâneos. Esse gado, porém, avançou pelos sertões até   chegar   ao   sertão   goiano,   atual   Tocantins,   na   região   onde se achavam os índios. A frente pastoril, como salienta  Melatti (p. 185), caracteriza-se pela criação de gado que avança pelos territórios indígenas, a fim de tomar suas terras para usá-las na 
expansão do rebanho.

A   história   dos   Apinayé,     desta   forma,   é  a  história   da ocupação do norte de Goiás por representantes de uma frente pastoril e de outra que utilizou o rio Tocantins e que, certamente, era constituída de remanescentes das zonas de mineração do sul de Goiás.

Segundo   Nimuendaju   (1983,   p.   18),   apesar   de   manter um contato prolongado com a sociedade brasileira, os Apinayé se   distinguem   dos   regionais   por   alguns   traços   que   tendem   a desaparecer. No caso masculino são os cabelos (maiores que os usados no sertão), os furos dos lóbulos das orelhas (somente encontrados   nos   homens   mais   velhos   da   comunidade)   e,   no caso das mulheres, a vestimenta que deixa o busto nu, exceto quando vão a Tocantinópolis e as outras cidades vizinhas.

Atualmente,       as   terras   indígenas    Apinayé      sofrem     a interferência direta de rodovias: TO 126 que liga os municípios de Tocantinópolis e Maurilândia, seccionando toda a reserva no sentido norte-sul; a TO 134, trecho Angico entroncamento BR 230; e a Transamazônica, com 9 aldeias localizadas ao longo de seu eixo, estão localizadas nove aldeias: São José, Patizal, Cocalinho, Buriti Comprido, Palmeiras, Prata, Serrinha, Cocal
Grande e Boi Morto. Já ao longo da BR 126, estão localizadas as outras seis aldeias: Mariazinha, Riachinho, Bonito, Brejão, Girassol e Botica. Localizam-se na região compreendida pela confluência dos rios Tocantins e Araguaia, com uma população 
aproximada de 1.597 índios distribuídos em 15 aldeias.

TRAJETÓRIA HISTÓRICA:
        De   modo   geral,   as   comunidades   indígenas   brasileiras recebem a denominação de tribos. Essas tribos são definidas por  uma série de características comuns. Para Melatti (1993, p. 71) trata-se de um grupo de pessoas cujas aldeias ocupam uma área
contígua, falam a mesma língua e possuem os mesmos costumes. Os atuais índios brasileiros não possuem aldeias cercadas e as tribos diferem entre si quanto ao modo de construí-las: diferem no tamanho, na forma e na disposição das casas.

        De acordo com Melatti (1993, p. 73), a maioria das tribos atuais constrói aldeias em forma de círculo, como é o caso dos Borôro, os índios do Alto Xingu, os Yanoâma da bacia do rio  Negro e os Timbira, dos quais os Apinayé fazem parte, e muitos outros. Os Borôro têm no centro da aldeia uma casa destinada aos   rapazes:   a   casa   dos   homens.   Por   outro   lado,   a   casa   dos homens já não existe mais nas aldeias Timbira. Os índios do
Alto Xingu têm no centro a gaiola do gavião real. Há também  índios que não constroem as aldeias em forma de círculo, como é o caso dos Xerente e dos Karajá-Xambioá.

        Mellati  (1993,  p.  74)  afirma  que,  no  caso  dos  índios  brasileiros,    as   aldeias   formam      uma    unidade    politicamente independente,       uma    vez    que   parece    não    haver   chefes    ou conselheiros que dirijam mais de uma aldeia.

        Deste   modo,   quando   os Apinayé   se   referem   à   própria sociedade,      sempre     destacam     a  aldeia    como    uma     unidade fundamental. Segundo Da Matta (1976, p. 61), diferentemente de    outros   grupos    tribais,  que    ao  falar   de  sua   vida   social
tomam   como   referência   algum   grupo,   os Apinayé   sempre,   e invariavelmente, focalizam a comunidade da aldeia.

 Da  Matta  (p.  41)  confirma  que,  a  julgar  pelos  dados  demográficos,   a   ocupação   do   território   Apinayé,   embora  acontecido      de   modo     lento,   não   deixou    de   causar    efeitos drásticos na população da tribo que, em menos de meio século, foi bastante reduzida. Mas o fato de estarem numa área de pouco valor econômico salvou os Apinayé de um processo maciço de interação com a sociedade regional, dando-lhes tempo para se recuperarem dos efeitos da depopulação. Para comprovar tais fatos, apresentamos os dados apontados por Nimuendaju e Da Matta:

APINAYÉS EM 1928:Em  1928,  a comunidade Apinayé  era  composta de quatro aldeias: Mariazinha, Cocal, Gato Preto e Bacaba;

        − Mariazinha era a aldeia mais próxima do rio Tocantins,
        a   cinco   quilômetros   da   cachoeira   das   Três   Barras.   Em
        1824,   havia   um   total   de   1000   índios.   Em   1928,   havia
        apenas 14 habitantes residentes em duas casas. Em 1837,
        esse número cai para cinco habitantes. Em 1962, observa-
        se uma elevação no número de habitantes: 57 habitantes
        em nove casas. Em 1967, já somam 92 habitantes em 16
        casas.

        − Cocal  situava-se  entre  Boa  Vista  e  São  Vicente,  nas 
        proximidades do Araguaia. Em 1842, contava com 1400.
        Em 1828, existiam apenas três casas e 25 habitantes. Em
        1937, ainda existiam as casas, mas se encontravam quase
        desabitadas, servindo aos vizinhos não-índios.

         − Gato  Preto    localizava-se     às   margens     do    ribeirão
        Botica. Em 1928, possuía sete casas e 61 moradores. Em
        1937, a população tinha aumentado para 80 habitantes.
        Nimuendaju (1983, p. 12), ao se referir a esta aldeia, deixa
        claro o problema do alcoolismo, quando afirma que as 
        condições da aldeia poderiam ser melhores se o cacique,
        Pedro Corredor, cuidasse de conter o alcoolismo.

        − Bacaba  situava-se  na  confluência  dos  ribeirões  São 
        José  e  Bacaba  a  18  km  de  Boa Vista  (Tocantinópolis). 
        Nimuendaju   (p.   17)   relata   que   essa   aldeia,   em   1844,
        possuía 850 habitantes, residentes em 21 casas. O autor diz
        haver nessa aldeia, em 1895, 600 índios, morando entre
        30 e 40 casas. Já em 1928, havia apenas 50 índios nessas
        mesmas casas. Em 1937, a população aumentou para 80
        pessoas,   em   sete   casas.   Porém,   em   1962,   existiam   150
        índios, distribuídos em 20 casas. Com o passar do tempo,
        a   população     dessa    aldeia   apresentou     um   crescimento
        populacional bastante significativo, pois em 1967 havia 
        161 índios, habitando 20 casas.

CERIMÔNIAS:
        Apesar   do   número   muito   reduzido   de   índios,   em   1931 os Apinayé   festejaram   várias   cerimônias   no   estilo   antigo,   por iniciativa dos próprios índios. Em 1937, celebraram, pela primeira vez, a iniciação dos novos guerreiros. A principal dificuldade para 
o cumprimento dos usos e costumes antigos entre o Apinayé era o número diminuto de habitantes. Não se podia mais contar com os pequenos grupos de Cocal e Mariazinha. Bacaba e Gato Preto somavam apenas 150 índios, sendo a distância entre uma e outra
de cerca de 20 quilômetros, o que também dificultava o contato  entre essas aldeias.

 Os Apinayé tinham por costume localizarem suas aldeias em campos abertos, muito próximas dos ribeirões perenes, nunca em matas fechadas. A tradição Apinayé aponta para a construção de   casas   regulares,   feitas   de   barro   batido   ou   de   palha,   com
cumeeira e cobertas de palhas de palmeiras da região. Às vezes encontram-se casas com paredes internas de esteiras de palha de babaçu. Os Apinayé dormem em jiraus ou esteiras de buriti, uma para cada casal.

HIERARQUIA:
 Desta      forma,   segundo  Nimuendaju (p. 26),  duas personalidades ainda têm papel importante nas aldeias Apinayé: Os que conservam a organização social antiga: o chefe (paiti ) hoje, o cacique, e o conselheiro (Kapél-txwúdn) ou orador.

O chefe da comunidade é sempre um membro da metade Kolti. Assim determinou       o  deus  do   sol  (mbud-ti), quando juntamente com o deus da lua (mbuduvri-re) levantou a primeira aldeia (falaremos sobre o dualismo Apinayé mais adiante).

Da     Matta    (1976,     p.  46)   explica     que,   apesar    de   os dados demográficos indicarem que a população Apinayé está  crescendo, a história da tribo revela uma tendência no sentido da redução, entendendo-se o termo redução como referindo-se não somente ao decréscimo da população, mas também ao número de   aldeias   e   à   própria   diversidade   cultural   que,   no   passado, existia entre os índios e não-índios. Tal diversidade foi abalada
devido à proximidade física da cidade de Tocantinópolis e às excelentes vias de comunicação, que passaram a favorecer os contatos entre os índios e não-índios, colocando os índios como produtores   regionais   de   babaçu,   uma   vez   que   o   coco   babaçu
serve   como   elemento   básico   de   integração   dos   Apinayé   na estrutura regional.

APINAYÉS EM 1992:
Em 1992, conforme relatório geral da Fundação Nacional do Índio, os índios Apinayé estavam distribuídos  em   seis aldeias, conforme descrito a seguir.

        a) Aldeia São José
        − Esta   aldeia   passou   por   quatro   mudanças,   porque   os índios tinham divergências políticas entre suas facções.
        A    antiga    São   Josezinha      possuía    apenas     três  casas    e tinha como líder José Dias Roxo, que ao se reunir com um outro índio, de nome José Grossinho, tentou reunir
os Apinayé   em   apenas   um   grupo,   pois   os   índios   eram poucos   e   estavam   muito   divididos.   Fundaram,   então,   a aldeia Velha. Porém, as divergências continuaram e, com   isso, Grossinho juntou-se a Romão Sotero Apinayé que, em 1983, fundou a atual aldeia São José, sendo cacique durante muitos anos. Romão Sotero Apinayé continuou sendo    uma    das   maiores     lideranças    dessa   aldeia,   que ainda está situada às margens do ribeirão grande, a 1000 metros   da Transamazônica. A  aldeia   São   José,   naquela época, era composta por 22 famílias, com uma população aproximada de 250 índios, tendo como cacique Camilo Apinayé. Esta aldeia continua pertencendo à sede do PIN
(Posto Indígena) São José.

        b) Mariazinha
        − Fundada em 1980, por Alexandre Apinayé, localiza-se na TO 126 que liga Itaguatins a Tocantinópolis, próxima ao Rio Tocantins. É formada por vinte casas, em forma retangular, e não possui pátio. Possui apenas uma casa denominada Redondo, local onde são feitas as reuniões da comunidade. Conta com uma população aproximada de 120 índios, tendo como cacique José Ribeiro Apinayé (Zé da Doca). É sede do PIN Mariazinha.

        c) Cocalinho
        − Fundada   em   1986   pela   índia   Maria   Barbosa,   a   única mulher     Apinayé     que    teve   grande    liderança    junto    a esses   índios.   Posteriormente,   foi   liderada   pelos   irmãos Sebastião Apinayé e Domingos Apinayé. Localiza-se no extremo norte do Tocantins, entre os ribeirões São Bento e dos Caboclos. É composta por 10 famílias que saíram da   aldeia   São   José.   Conta   com   uma   população   de   72 índios, tendo como cacique Domingos Apinayé.

        d) Patizal
        − Localizada nas proximidades da cabeceira do ribeirão Grande, é formada por 10 casas, com uma população de 76 índios. É fruto de divisão da aldeia São José, liderada pelo ex-cacique da São José, José Grossinho, em 1986.

        e) Barreiro
        − Atualmente       Bonito,    resultante   de   divisão   da   aldeia Mariazinha,      em    1988.    Está    situada   às   margens     do ribeirão Botica, possui apenas sete casas e uma população aproximada   de   50   pessoas,   tendo   como   líder   o   índio Cristino Apinayé.

       f) Riachinho
        − Surgiu   a   partir   da   divisão   da   aldeia   Mariazinha   em 1988. É composta apenas pela família do cacique Júlio Apinayé. Está localizada a quatro quilômetros da aldeia
Mariazinha.

NO SÉCULO XX:
        No  início  do  século  XX,  os  Apinayé  abandonaram  as  margens do rio Araguaia, juntando-se aos índios da aldeia de São Martinho. Formaram, então, nova aldeia às margens do ribeirão São   Benedito.   Esta   aldeia,   segundo   Da   Matta   (1976, p. 45),permaneceu até 1943, quando a febre praticamente dizimou a população, que tinha Pedro Laranja como líder. Numa tentativa de salvar os que não foram vitimados pela epidemia, José Dias
Mãtyk,   chefe   da   aldeia   São   José   (Krijõbrêiré)   foi   buscar   os índios sobreviventes.

        Os    Côcôjôiré,     subgrupo     da   Mariazinha,     conforme      o relatório geral da Funai, no início do século possuíam apenas uma grande aldeia, denominada Bonita. Em conseqüência de uma briga entre dois irmãos, esta se dividiu em dois grupos,
indo   um   para   as   margens   do   ribeirão   Pecôb   e,   outro,   para   o ribeirão Botica (antiga aldeia Gato Preto). Na década de 20, a aldeia do Pecôb foi abandonada, uma vez que seus moradores deslocaram-se para as margens do ribeirão Grande. Já a aldeia Gato Preto permaneceu na região de Botica até 1950, quando os índios a abandonaram e foram para Mariazinha.

        De   acordo   com   o   relatório   supracitado,   os   Krijõbrêjré constituíam, no início do século XX, uma só aldeia, denominada  Alegria,   situada   às   margens   do   ribeirão   Piraí,   que   era   mais próximo de Boa Vista, atual Tocantinópolis. Assim, na década de 
20, com a população muito reduzida, os Apinayé abandonaram a   aldeia Alegria,   procurando   a   região   dos   Ribeirões,   Bacaba e São José, afastando-se das margens do Tocantins e cedendo suas   terras   aos   povoados   da   região.   A   partir   dessa   década,
então, a história dos Apinayé passa a se integrar à história de Tocantinópolis.  Ao longo dos anos de contato com a sociedade envolvente, os povos Apinayé vêm tentando manter-se enquanto comunidade minoritária, enfrentando conflitos tanto de ordem social quanto 
linguística, religiosa e cultural. Mesmo diante de tal situação, os Apinayé têm aumentado suas aldeias e conseqüentemente a sua população.

        Como podemos observar, ao longo dos anos as aldeias Apinayé vêm se espalhando em toda extensão de seu território. Contudo, mesmo diante dessa situação, os Apinayé, segundo
Da Matta (1976, p. 66), têm orgulho da forma de suas aldeias: embora   elas   não   sejam   mais   fisicamente   circulares,   sua  forma   sociológica   mantém   o   formato   de   círculo,   mesmo   em Mariazinha, que é uma aldeia em forma de rua. Assim, a aldeia para esses índios é como um diagrama em que se imprimem e se descobrem as relações dos homens com a natureza e as relações dos homens com as categorias que os governam.

GRUPOS SOCIAIS APINAYÉ:
        Para    Da   Matta    (1976,    p.  61),  os   Apinayé     destacam três   regiões   ou   domínios   sociais   muito   importantes:   o   pátio (chamado por eles de ingó ou me-ingó); a região das casas (ikré ou periferia) e a região que fica fora dos limites da comunidade,  mas está em sua volta (chamada de atúk, que significa atrás). Para   os Apinayé,   as   aldeias   são   concebidas   como   estruturas concêntricas. Sendo que, além do plano concêntrico das casas, de acordo com o autor, é preciso levar em conta também seu aspecto diametral. Assim, no plano concêntrico, os elementos fogo, pátio, casas, aldeias, roças, índios mansos, água, índios bravos, civilizados, terra, céu, aldeia dos mortos e, finalmente,  o sol e a luz, distribuem-se do centro para a periferia. Daí as oposições   diametrais,   homem/mulher,   cru/cozido,   água/fogo, dia/noite   e   sol/lua.   É   como   se   o   dualismo   concêntrico   fosse destinado a permitir o estabelecimento de gradações, ao passo que o diametral tende a ser aplicado para dividir o mundo mais radical.

  Os Apinayé contrastam a forma de suas aldeias com a das cidades do interior que, para eles, têm seu efeito urbano baseado em linhas de casas que crescem paralelamente a uma estrada ou a um rio, como é, sem dúvida, o caso de Tocantinópolis e dos povoados próximos às aldeias. Da Matta (1976, p. 67) relata   o   fato   de   os Apinayé   comentarem   que:   “Enquanto   as aldeias dos índios têm problemas para aumentar ou diminuir, as cidades dos não-indígenas crescem facilmente, pois trata- se apenas de colocar no final das linhas mais uma casa. Suas  possibilidades de extensão são, portanto, infinitas aos olhos  dos Apinayé. A forma urbana brasileira é considerada aberta, em oposição ao padrão Apinayé que é considerado fechado”.

        Ainda     segundo      Da   Matta    (p.   68),   ao   descrever     a morfologia       da   sociedade      Apinayé,      comenta:     “Falar    em sociedade   Apinayé,        implica    para   esses   indígenas     tomar    a aldeia    como     ponto    de  referência     e,  posteriormente,      fazer oposições   entre   grupos   sociais   e   categorias,   utilizando   um eixo   diametral   ou   eixo   concêntrico. A  ordem   social   é,   pois, obtida pelas oposições e o dinamismo do sistema é dado pela passagem de uma a outra dimensão antitética”.

        Desse modo, falar sobre o grupo social Apinayé é, de certa forma, estabelecer tais divisões e revelar o significado  das passagens de um domínio a outro domínio do sistema. Nas palavras de Da Matta: “um desses domínios é o da periferia da aldeia, apresentado pelas casas e grupos domésticos. O outro é o da praça, centro ou pátio central, representado pelos dois pares de metades cerimoniais, Kolti e Kolre” (p. 103).

  Para os Apinayé, os dois grupos melhor definidos na vida  cotidiana   são:   (1)   a   família   nuclear   (composta   por   maridos, mulheres e filhos) e (2) a família extensa uxorilocal (composta  por um casal, os maridos e os filhos de suas filhas). 

        Segundo   Da   Matta   (1976,   p.   68),   embora   haja   casas sem famílias extensas, não há casa sem que haja pelo menos uma   família   nuclear.   Conseqüentemente,   homens   e   mulheres solteiros não têm o direito de construir casas para si  próprios. A família nuclear é a unidade básica de reprodução e produção entre os Apinayé e, assim sendo, tem direito de usufruto sobre uma   parte   da   terra,   normalmente   preparada   e   cultivada   pelo
marido e pela mulher, visando, sobretudo, aos seus filhos.

        Tanto em São José quanto em Mariazinha existem mais casas     ocupadas     por  famílias    extensas    do   que   por  famílias nucleares.   Para   Da   Matta   (p.   69),   a   base   da   composição   da família     extensa    é  a  residência    uxorilocal    para   os  homens,
que assim deixam seus lugares em seus grupos natais para os maridos de suas irmãs. Deste modo, enquanto a família nuclear é um grupo em que pai, mãe e filhos se ligam uns aos outros  de modo simétrico e complementar, na família extensa, o lado feminino é básico, pois é em volta dos laços mãe-filha que o  grupo se constitui.

  Por conseguinte, a casa, do mesmo modo que a aldeia, é motivada em termos de um lado cotidiano e privado, o seu lado de trás, e de um lado cerimonial e público, os caminhos (ngó
prú ) que levam ao pátio. Levando em conta essas divisões, os Apinayé chamam a parte da casa que sai para o pátio de ikré

kapême (frente da casa) e ikré katúd-lé (parte dos fundos). Da Matta (p. 75) explica que a parte da frente da casa pertence à aldeia e está ligada diretamente ao pátio central nos rituais; é a parte da frente da casa que é tomada como referência, sendo a parte
de trás utilizada para as trocas diárias de comida e realização de trabalhos como, por exemplo, pilar arroz, descascar mandioca e extrair óleo do coco babaçu. Desta forma, enquanto a parte dos fundos da casa situa-se numa área marginal, nas fronteiras da
sociedade Apinayé, a parte da frente está totalmente inserida no sistema social da comunidade Apinayé.

        O sistema social Apinayé, segundo Da Matta (p. 95), é dividido   em   dois   campos   complementares:   (1)   o   campo   das relações   domésticas   (que   unem   os   seus   familiares)   e   (2)   o campo das relações sociais ou cerimoniais (obrigações rituais
e   políticas   relacionadas     à  comunidade).      Na   vida   cotidiana, esses dois campos se cortam, mas a concepção desses campos como   domínios   divididos   e   separados   é   fundamental   para   a interpretação do mundo social Apinayé.

O DUALISMO APINAYÉ: METADES KOOTI E KOORE:
        Pertencem a uma das metades Kooti e Koore, que lhes são   transmitidas   com   os   nomes,   todos   os   índios Apinayé,   de ambos os sexos. Muitas vezes, em virtude do recebimento de dois grupos de nomes, um índio pode pertencer a duas metades ao   mesmo   tempo.   Para   Da   Matta   (p.   100),   isso   não   acarreta nenhum problema de divisão de lealdade ou personalidade. Pelo contrário, eles tomam essa possibilidade de escolha como uma vantagem e, desde que o índio duplamente filiado escolha o seu  grupo durante um ato cerimonial, ele tem todas as prerrogativasdo   grupo   escolhido.   Como   esses   grupos   só   entram   em   plena atividade durante as festas, a escolha não constitui um problema e a definição da filiação fica relegada a uma decisão contextual.

De fato, para os Apinayé, o sol e a lua são as duas entidades que   criaram   o   universo   e   a   humanidade,   quando   resolveram descer para a terra que estava imersa no caos. Entretanto, os Apinayé sempre se referem ao sol como o principal elemento.
Foi ele quem teve a iniciativa de vir para a terra e é ele quem, geralmente,   tem   a   primazia   nas   ações   do   mito   que   relata   a criação do universo.

Para Da Matta (1976, p. 104), a divisão Kooti e Koore, como   conseqüência,   realinha   relações   sociais   em   termos   de princípios   que   atravessam   toda   a   sociedade Apinayé   e   assim levam a orientação dos seus membros para as dimensões mais
universais e coletivas do sistema. Segundo este autor, os Apinayé ritualizam as relações categóricas de sua sociedade em pares opostos.   Muitas   vezes,   as   metades   Kooti   e   Koore   aparecem como times destinados a trazer toras para a aldeia, num jogo que é característico de todos os Jê do Brasil central. Segundo afirma  Nimuendaju  (1983,  p.  106),  as  turmas  competidoras  são formadas pelos homens e moças das duas metades Kooti e Koore. A corrida é feita da mesma maneira que é feita pelos Timbira orientais e Xerente: do lugar da confecção das toras em  direção à praça da aldeia. Os Apinayé, contudo, não usam, como os Xerente, uma tora para dois carregadores simultaneamente. 
Uma   particularidade   de   certas   corridas   Apinayé   é   a   de   não depositarem o par de toras no chão, quando se preparam para o início da corrida, mas sim sobre dois pares de forquilhas.

 A corrida, assim, sempre começa de fora para dentro da aldeia. Os Apinayé também fazem, segundo este autor, corridas sem grande ostentação, quando grupos de homens voltam para
a aldeia, depois de qualquer trabalho comum.

 Outra   ocasião   em   que   a   divisão   em   metades   Kooti   e Koore era fundamental, segundo Da Matta (p. 105), era quando havia o período de iniciação entre os Apinayé (o que não ocorre mais   hoje),   durante   as   duas   fases   dos   ritos   de   iniciação   dos
jovens Apinayé. Nessas ocasiões, não havia só a formação de times   de   corridas,   mas   também   havia   o   uso   de   uma   série   de dimensões que distinguiam os dois grupos entre si, marcando as   diferenças   próprias   de   cada   unidade.   Logo   que   os   jovens
iniciados eram separados de suas casas maternas, na primeira fase das iniciações, essa divisão começava a ser imediatamente focalizada.

FONTE:

Nenhum comentário:

Postar um comentário